Deus responde.

Os cachos foram embora. Deixaram meu coração em caquinhos, que caíram no chão, fizeram muito barulho e instigaram lágrimas que inundaram meus dias. Mas passou. Ficou um sentimento dolorido, uma saudade com cheiro de chuva… Sabe quando o dia está muito calor e no final da tarde começam cair aqueles pingos fortes, uma ventania braba, leva telhas, faz cair a eletricidade em alguns lugares… e depois, quando vai embora, deixa um frescor e um suave cheiro de grama molhada? Foi assim.

Durante a tempestade, foi difícil até comer. Enquanto as telhas voavam, muitas folhas eram varridas do quintal das minhas reminiscências de infância… como um filme, cenas se projetavam diante dos meus olhos enquanto eu andava na rua, tomava banho ou fazia compras. Foi horrível. Parecia que o inferno havia aberto as portas e liberado meus monstros guardados cuidadosamente no guarda-roupa há anos. Eu precisava rever minha vida. Eu *tive* que rever minha vida.

Não foram os cachos castanho-avermelhados que fizeram isso. Não, nenhum ser humano presente em nossa vida por tão pouco tempo pode nos fazer sofrer tanto. Mas foi uma coisinha sem importância que ele disse, uma frase… a mesma frase que minha mãe dizia. A frase que era a senha para a libertação dos monstros. Eles saíram uivando, grunhindo, fedendo e querendo destruir tudo ao redor. Felizmente não o fizeram, porque uma boa alma, na figura de um padre muito engraçado, veio falar comigo no dia em que eles iam vencer. Eu juro, eles iam vencer. Corri pra igreja perto de casa, não havia mais recurso disponível, ninguem pra pedir ajuda, ninguem pra quem eu tivesse coragem de contar o que eu estava passando, senão Deus e rezei. O padre me viu chorando, veio, sentou-se do meu lado, fez algumas piadas… e disse: por que vc não espera só mais um dia? Quem sabe amanhã a resposta apareça?

Na verdade, a resposta não apareceu do jeito que eu esperava. Mas como sei que Deus é muito didático, pedagogo exemplar, resolvi puxar a fímbria do vestido dele – po, na boa, essas figuras renascentistas de Deus usando vestido são grotescas! rs… – todos os dias. A TODO MOMENTO. Literalmente. Eu disse: “Deus, o negócio é o seguinte, eu vou te atormentar tanto, mas tanto, que, ou vc me restitui o que eu perdi, ou me dá algo tão melhor, mas tão melhor, que eu nem lembre da perda.” Há na Bíblia uma passagem: “Se um filho pedir um pão, qual o pai entre vós que lhe dará uma pedra? Se ele pedir um peixe, acaso lhe dará uma serpente?” (Lucas 11:11). Resolvi pedir meu pão a Deus.

A choradeira foi passando aos poucos. Os monstros foram sendo derrotados. O dono do sorriso largo perdeu seu trono que ocupava há cinco anos. Cinco anos! Havia cinco anos eu não tinha coragem de olhar para o trono, para conferir se o sorriso largo e a risada alta ainda estavam lá. Eu tive que olhar dessa vez. Encontrei o trono vazio, muito pó… e pouca saudade! Aliás, sendo bem honesta, nenhuma saudade. O rei fugiu com a lacaia para outras terras e na verdade foi o melhor para o reino todo. Como eu lamento não ter visto isso antes!

A Rainha de Copas perdeu seu lugar no meu reino também. Finalmente pude enxergá-la do jeito que é, ser-humano pobre de perspectivas e carente de amor. Tão carente que nunca conseguiu vislumbrar a única saída que resta àqueles que carregam esse buraco negro dentro de si. Só existe um jeito de suprir a carência: dando amor. Não há outra alternativa. Eu aprendi. Ela não. Ela teve 3 filhos maravilhosos e os colocou um contra o outro. Dilacerou uma família com o seu egoísmo e sua necessidade de atenção. Foi verdadeiramente libertador aceitar isso. Estava andando na rua e comecei a rir desvairadamente ao conseguir pronunciar a frase que soltou as correntes. As pessoas me olhavam como se eu fosse louca. Só faltei gritar que estava alforriada. E nessa última sexta-feira eu finalmente coloquei os lacaios da Rainha de Copas para fora do meu reino. É óbvio que doeu e que o medo de estar sozinha no mundo é incrivelmente aterrador. Porém… Ninguém mais terá cabeças cortadas, eu garanto!

Faz uma semana e meia que Deus, cansado da minha ladainha e impossibilitado de ir contra o livre-arbítrio de um filho dele, colocou em meu caminho um paliativo altamente potente. Ele é muito alto e muito carinhoso. Nâo tem cachos castanho avermelhados. Mas tem a capacidade de dizer “desculpa”, “por favor”, “o que vc acha?” e de me esperar quase todos os dias depois da aula para me acompanhar até o ponto de ônibus. Quando está ficando muito tarde, ele pergunta se eu vou ficar brava se ele não esperar comigo. Simplesmente porque este é o último ônibus dele. Eu fico boquiaberta, mas não demonstro. E meu coração incha. De verdade. Enquanto isso, o mundo do viking se faz confuso e me confunde mais ainda. Estou tão confusa que não tenho mais voz e nada digo. Meu coração ainda dói, mas eu silenciei.

Silenciei nos braços daquele que Deus me mandou como resposta às rogativas de uma criança pidona e irritante. Silenciei vendo meu reflexo bonito e brilhante no olhar carinhoso daquele que não entende direito ainda o porquê de eu não querer me render totalmente a ele – não consigo dizer que não posso, porque o urso ainda não me restituiu meu coração. Silenciei, confusa, amada por um e desprezada por outro, em prece que traz uma mistura de agradecimento – pela resposta tão maravilhosa que Ele me enviou – e de rogativa – para que o urso liberte meu coração ou o tome para si, para sempre.

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