A maior dor do mundo…

… não emerge quando resolvemos observar nosso universo através de um microscópio, analisamos cuidadosamente todas as microvilosidades do passado e do presente e divisamos o tamanho das dores que carregamos.

A maior dor do mundo não aparece quando percebemos o tempo perdido, os amores idos e a energia gasta em vão, diluída em cotidianos de esperanças, tentativas e vicissitudes.

Tampouco flutua esgazeada pela umidade do ar entre os nossos olhos e o vidro da ocular embaçando a imagem…

Não. A maior dor do mundo acontece quando percebemos que todas as dores que carregamos ainda persistem e não vão desvanecer sozinhas, não se dissiparam e nem o farão, apesar de já velhas, apodrecidas e fedidas de naftalina.

Nada do que eu faça hoje vai fazer com que as lágrimas retidas sequem. Há zilhões de litros cúbicos de água a ser chorada por todas essas dores ainda, lágrimas que não verterei, pois já aprendi que há coisas melhores a serem feitas do que ressuscitar mortos putrefatos. No entanto as lápides pesam, sustentáculos de concreto para odes à traição, vaidade e egoísmo humano, gravados em letras de fel, rancor, mágoa e laivos de desespero. Não acordemos os mortos, porém, vez ou outra troquemos as flores e caiemos as lápides para que não pareçamos um aterro sanitário ao invés de um distinto cemitério de fetos de esperança e alegria, abortados pela crueldade inerente aos que se dignam auto-denominar o topo da escala evolutiva.

A maior dor do mundo me faz curvar, arfar e soluçar em silêncio. Esconder a maior dor do mundo é verdadeiramente uma arte e me fez aprender a dissimular, olhar para os lados e sorrir, quando na verdade gostaria de pular do 10o andar, cortar os pulsos ou tomar uma overdose de calmantes regados a black label.

Interessante, porém, é que justamente por eu não acreditar válido pular do 10 andar, cortar os pulsos ou tomar uma overdose de calmantes regados a black label, ao analisar as microvilosidades do passado, percebo estruturas outras, pequenos oóides de cartilagem que cresceram, sustentando os tecidos. Essas novas estruturas, feitas de uma amálgama de experiência, tempo e paciência, reforçam o tecido e impedem que ele colapse.

Sim, é um paradoxo brutal: aquilo do que procuro desesperadamente fugir é o que me torna mais forte e capaz de seguir em frente; é o enrijece as proposições; é o que concretiza a minha paz. Sabendo-me tão dolorida, aprendi que nada mais pode me machucar tanto. A maior dor do mundo é o paliativo de si própria, a panacéia de todas as outras farpas do porvir.

Sou forte.
Ninguem imagina o quanto sou forte.

A Rainha de Copas veio ao meu castelo no Natal, ofertar-me frutas as quais não aceitei, justamente por fazer 33 anos que anuncio não gostar daquelas mesmas frutas. Nâo chorei.

O dono do sorriso largo vai casar com a lacaia. Chorei como uma criança, mesmo sem saber porquê. Chorei porque talvez tenha sido a coisa que aprendi a fazer. Sentei-me no cantinho entre o criado mudo e a cômoda, canto que mal acomoda meus quadris e verti lágrimas doloridas, quase que de redenção. Agora acabou. Mesmo. Toda a fábula do reino. E viveram felizes para sempre. É o que tenho que esperar que aconteça, porque sou um ser humano espiritualizado. E só por isso.

O urso devolveu meus pertences somente ontem. Deixou dois ítens sem embrulho, pacote ou bilhete. Largou na portaria com tal displicência, como se quisesse reforçar o quanto insignificante eu sou, que chorei. Mas também devo admitir que estou sob a influencia da flutuação hormonal mensal e assistia a um filme diabeticamente açucarado quando o interfone tocou. Corri à sacada e ainda pude ve-lo virando a esquina, o mesmo andar pesado, a mesma mochila nas costas, os mesmos cachos castanho-avermelhados.

Nota que vale a pena ser redigida nesse momento: uma das maiores lápides do cemitério supra-citado é aquela que enverga um cânone dodecafônico sobre o descaso e desprezo dos ex-amantes. Que esse cluster de insônias vibre em seus tímpanos por toda a eternidade quando suas almas arderem no inferno. Especialmente as dos que se utilizaram ad libitum do meu tempo precioso e ostentam motivos egoístas para me dispensarem tal tratamento. Amém.

Os ombros que Deus havia me enviado como resposta às minhas rogativas eram somente um analgésico tópico. Logo que ele se meteu a fuçar meus emails, descobriu uma mensagem de caráter dúbio do urso, beijou meus lábios sofregamente no ponto de ônibus e se foi. Mal sabia eu que seria a última vez. Numa quinta-feira ele declarou que quanto maior o apego, maior seria a queda e que assim sendo, queria desapegar. Assenti, um tanto contrariada.

No dia seguinte, fitava-me com olhar dorido. Não subi para a segunda aula, resolvi fazer companhia a um amigo na comemoração de mestrado de outro, ainda na faculdade. Entrei, peguei uma cerveja, duas, três. Pensava no urso. Meu amigo se afastou, fiquei sozinha, ao lado do barril lotado de cervejas geladas.

Eis que o Rei cruza a sala e vem em minha direção. Há 4 anos, ainda infante, nem sequer apresentava porte de monarca. Agora, já homem, já muito alto o homem, já muito grande esse grande homem, ostentava naquela sexta-feira, lindo sorriso largo, olhos verdes brilhantes e uma massa de cachos loiros.

Falou mansamente por uma hora…. por duas horas… por três horas…. enquanto eu bebia insanamente e alternava meus pensamentos entre uma preocupação cada vez mais forte sobre como voltaria para casa e a aferição tão aliviadora de que sim, talvez eu fosse desejada naquele momento.

Ele me acompanhou ao ponto de ônibus. E lá, me beijou. Depois que avisei que se ele nada fizesse eu também nada faria, vale registrar. Ele me beijou. Um beijo mil vezes melhor do que todos que eu já havia experimentado.

Ele me abraçou. E aquele abraço sim, foi o que eu havia pedido a Deus, foi a resposta das minhas preces. Foi o abraço salvador, resgatador, protetor, acolhedor… Foi o melhor abraço da minha vida. Era dia 10 de outubro.

Nos meses seguintes pude descobrir que os cachos loiros e os olhos verdes brilhantes são a qualidade menos importante dele. O que mais aparece, mais brilha e mais encanta é o coração dele. A paciência para ouvir, pensar, conversar, sorrir e resolver os conflitos que advém, muitas vezes e como seria de se esperar, da grande diferença de idade. E da família. Ele tem família, eu não.

Posso afirmar que Deus me dá sempre aquilo que peço. Talvez o Urso tenha sido um preâmbulo necessário para que eu entendesse o rei. Talvez o rei se vá em poucos meses, apesar de ele mesmo ter decretado o Namoro, no dia 31 de dezembro. Não poso prever os próximos capítulos, mas posso hoje aferir que, em meio à tempestade de me ver proprietária de enorme cemitério de lápides caiadas ostentando sonetos em redondilha maior, há um raio de sol, por meio das nuvens, insistindo em refratar, criando o arco-íris.

Esse raio de sol tem 1,90m, lindos olhos verdes, uma massa confusa de cachos loiros deliciosamente bagunçados, um sorriso lindamente largo…. e um coração ENORME, que o faz dizer com voz aveludada, enquanto me abraça e me esconde do mundo, quando vislumbra a sombra das nuvens em meus olhos tristes, que tudo vai ficar bem.

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