Inveja

Sempre tive que me defrontar com pessoas que tinham inveja de mim ou do que eu possuía, seja a posse material, amorosa ou espiritual, embora fosse muito reticente a aceitar o fato, talvez porque eu mesma nunca tivesse achado que possuía algo que outros pudessem querer. Nos primeiros anos da minha adolescência, aprendi a detectar a maldade que nascia desse sentimento mais grosseiro e que incitava certas pessoas a me destratarem ou me prejudicarem, especialmente quando minha aptidão para a música e para a ciência se tornaram aparentes.

No entanto, conforme o tempo passava e esta aferição se materializava em eventos quase contínuos, fui obrigada a aprender a lidar com a reação maldosa das pessoas e a fingir que não ligava. Não foram raras as vezes em que indaguei a mim mesma e aos Céus o que era isso que determinada pessoa invejava em mim, sendo que eu mesma possuía muito pouco perto dela. Em vários momentos proferi a frase “Eu é que devia invejá-la(o)”, já que sou eu quem não tem carro, sou eu quem dorme 5 horas por noite, sou eu quem vive com medo de não ter dinheiro, sou eu quem está sempre de regime e nunca emagrecendo… sou eu. Coincidentemente, as pessoas que mais me prejudicaram até hoje, foram aquelas que tinham tudo o que eu queria ter… mas nunca as invejei.

Gabei-me disso até hoje.

Hoje senti inveja.

Somente hoje pude apreender o verdadeiro significado desse sentimento tão humano…

Eu não senti raiva da pessoa, tampouco desejei que ela não tivesse aquilo que invejei. Mas naquele momento eu quis aquilo também, e não fui capaz de sorrir do jeito que sempre faço quando as pessoas me contam novidades bonitas e felizes. Não disse nada, porém, somente me limitei a tentar sorrir. O resultado foi um esgar meio torto que transmitiu minha tormenta interior. Graças a Deus é uma grande amiga, alguem que me conhece e (espero!) saiba que não foi uma atitude voluntária nem pessoal.

Mas não pude evitar e me senti profundamente mal com isso. Conversamos sobre os motivos que me haviam feito ficar brava hoje (uma colega e sua falsidade impressionante, a falta de perspectivas profissionais, a infelicidade de termos que aturar os comentários de uma outra que nada sabe mas tudo *finge* que sabe) e em nenhum momento ela demonstrou que sabia o que eu estava sentindo em relação ao que ela havia me contado. Sei, porém, que ela sabe. E, mais uma vez, dou graças a Deus por ter tão preciosa amiga, que soube esconder talvez sua decepção e me encorajar a me sentir melhor, falando sobre outras coisas.

O que eu senti foi inveja. Uma fração de segundo, foi tudo o que o sentimento durou, mas pude reconhecê-lo. Logo depois, me senti mal. E somente agora, duas horas depois do ocorrido, posso discernir melhor meus sentimentos e perceber quão valiosa essa lição foi: precisava passar por isso para averiguar que sou humana, que este sentimento ainda existe em mim e que deve ser amenizado. Talvez a Vida tenha tentado me mostrar isso algumas vezes, porém o fez através de pessoas com as quais não me importo e por isso sempre coloquei à frente a desculpa de que “estou me sentindo assim porque não gosto dela(e)”. Mas a verdade é inexorável: eu sinto inveja sim.

Consigo perceber que esta inveja quase nunca vem aliada ao desejo de ver a pessoa perder aquilo que conseguiu. Digo, “nunca”, porque uma vez já o quis e rezei muito, mas muito mesmo, para que Deus não permitisse que meu desejo mau se concretizasse. Era tragicômico escutar minhas palavras então: “Tomara que ela ‘se ferre’! Ai, não Deus, não deixa isso acontecer. Sei que eu estou muito brava com ela, mas um dia vai passar. Por favor, não deixa chegar nela o que eu emiti de energia ruim.”

Nunca soube se “ela” se ferrou ou não e hoje, passados alguns anos, não mais me interessa. O que transparece mais do que nunca agora é a necessidade de eu me respeitar mais, de me conhecer mais e de não me deixar mais sentir “fome” de determinadas coisas, a ponto de invejar uma de minhas mais importantes amigas. Eu invejei algo que tive no ano passado e que este ano não tenho mais. Não sei como recuperar isso. Ela me diz que eu é que sou insegura e que tenho isso ainda, sim. Mas não consigo enxergar…

De qualquer forma, hoje eu poderia desenhar a inveja. E se assim o fizesse aqui, ela seria um lobo esfomeado, magricelo, doido de dor de fome. A inveja é um instinto animal de querermos ter aquilo do que supostamente precisamos para a nossa sobrevivência. Infelizmente não é tão fácil aferir onde se encontra a “fome” de cada um. Se assim o fosse, poderíamos prover o invejoso da “comida” que lhe falta e sanar-lhe a dor. Mas cada indivíduo apresenta o estomago vazio em algum lugar diferente, embora, acredito, todas as dores estejam enraizadas na auto-estima.

Se eu não tivesse tanta insegurança, teria conseguido ficar feliz naquele átimo de segundo antes da razão se sobrepor à emoção. Eu saberia que tenho acesso aos mesmos “momentos” que ela. Teria certeza de que ando ao lado dela. E nunca teria me sentido triste, ainda que por um centésimo de segundo, por não ter o que ela tem.

Quando a razão emergiu, lembrei-me que ao longo do ano passado eu tive tudo isso, enquanto ela sofreu duros golpes da pessoa que hoje lhe acaricia a cabeça. Quando a razão emergiu, pude constatar que o que eu sentia era injusto não somente com ela, mas comigo também. Tendo a razão como guia, percebi que eu me depreciei naquele momento e me coloquei na posição do indivíduo incapaz de suscitar admiração e de receber louros por seu trabalho.

É essa razão emersa que me faz declarar que o invejoso sofre de fome. Mas não é qualquer fome, é uma fome dolorida, pesada e cansativa, que mina a resistência do infeliz e o faz curvar-se sobre o estômago vazio… o estômago da alma. O invejoso padece de fome de apreciar-se e ver-se a si mesmo como ele realmente é. Carece de uma certa afasia e sofre de tremenda falta de propriocepção. Enxerga e não vê, lê e não interpreta, toca e não sente a si próprio. Deseja do outro o que ele nem mesmo sabe que tem, como uma criança que observa, babando, a vitrine de doces, mas esquece de escarafunchar a própria lancheira para ver o conteúdo… e  por isso deixa de ser supreendido pelo doce que a mãe zelosamente embalou.

O que me resta no momento é a pergunta: como faço para abrir a minha lancheira?

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minus , wanting , without , less , outside , past , lacking , out
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