Inveja

Sempre tive que me defrontar com pessoas que tinham inveja de mim ou do que eu possuía, seja a posse material, amorosa ou espiritual, embora fosse muito reticente a aceitar o fato, talvez porque eu mesma nunca tivesse achado que possuía algo que outros pudessem querer. Nos primeiros anos da minha adolescência, aprendi a detectar a maldade que nascia desse sentimento mais grosseiro e que incitava certas pessoas a me destratarem ou me prejudicarem, especialmente quando minha aptidão para a música e para a ciência se tornaram aparentes.

No entanto, conforme o tempo passava e esta aferição se materializava em eventos quase contínuos, fui obrigada a aprender a lidar com a reação maldosa das pessoas e a fingir que não ligava. Não foram raras as vezes em que indaguei a mim mesma e aos Céus o que era isso que determinada pessoa invejava em mim, sendo que eu mesma possuía muito pouco perto dela. Em vários momentos proferi a frase “Eu é que devia invejá-la(o)”, já que sou eu quem não tem carro, sou eu quem dorme 5 horas por noite, sou eu quem vive com medo de não ter dinheiro, sou eu quem está sempre de regime e nunca emagrecendo… sou eu. Coincidentemente, as pessoas que mais me prejudicaram até hoje, foram aquelas que tinham tudo o que eu queria ter… mas nunca as invejei.

Gabei-me disso até hoje.

Hoje senti inveja.

Somente hoje pude apreender o verdadeiro significado desse sentimento tão humano…

Eu não senti raiva da pessoa, tampouco desejei que ela não tivesse aquilo que invejei. Mas naquele momento eu quis aquilo também, e não fui capaz de sorrir do jeito que sempre faço quando as pessoas me contam novidades bonitas e felizes. Não disse nada, porém, somente me limitei a tentar sorrir. O resultado foi um esgar meio torto que transmitiu minha tormenta interior. Graças a Deus é uma grande amiga, alguem que me conhece e (espero!) saiba que não foi uma atitude voluntária nem pessoal.

Mas não pude evitar e me senti profundamente mal com isso. Conversamos sobre os motivos que me haviam feito ficar brava hoje (uma colega e sua falsidade impressionante, a falta de perspectivas profissionais, a infelicidade de termos que aturar os comentários de uma outra que nada sabe mas tudo *finge* que sabe) e em nenhum momento ela demonstrou que sabia o que eu estava sentindo em relação ao que ela havia me contado. Sei, porém, que ela sabe. E, mais uma vez, dou graças a Deus por ter tão preciosa amiga, que soube esconder talvez sua decepção e me encorajar a me sentir melhor, falando sobre outras coisas.

O que eu senti foi inveja. Uma fração de segundo, foi tudo o que o sentimento durou, mas pude reconhecê-lo. Logo depois, me senti mal. E somente agora, duas horas depois do ocorrido, posso discernir melhor meus sentimentos e perceber quão valiosa essa lição foi: precisava passar por isso para averiguar que sou humana, que este sentimento ainda existe em mim e que deve ser amenizado. Talvez a Vida tenha tentado me mostrar isso algumas vezes, porém o fez através de pessoas com as quais não me importo e por isso sempre coloquei à frente a desculpa de que “estou me sentindo assim porque não gosto dela(e)”. Mas a verdade é inexorável: eu sinto inveja sim.

Consigo perceber que esta inveja quase nunca vem aliada ao desejo de ver a pessoa perder aquilo que conseguiu. Digo, “nunca”, porque uma vez já o quis e rezei muito, mas muito mesmo, para que Deus não permitisse que meu desejo mau se concretizasse. Era tragicômico escutar minhas palavras então: “Tomara que ela ‘se ferre’! Ai, não Deus, não deixa isso acontecer. Sei que eu estou muito brava com ela, mas um dia vai passar. Por favor, não deixa chegar nela o que eu emiti de energia ruim.”

Nunca soube se “ela” se ferrou ou não e hoje, passados alguns anos, não mais me interessa. O que transparece mais do que nunca agora é a necessidade de eu me respeitar mais, de me conhecer mais e de não me deixar mais sentir “fome” de determinadas coisas, a ponto de invejar uma de minhas mais importantes amigas. Eu invejei algo que tive no ano passado e que este ano não tenho mais. Não sei como recuperar isso. Ela me diz que eu é que sou insegura e que tenho isso ainda, sim. Mas não consigo enxergar…

De qualquer forma, hoje eu poderia desenhar a inveja. E se assim o fizesse aqui, ela seria um lobo esfomeado, magricelo, doido de dor de fome. A inveja é um instinto animal de querermos ter aquilo do que supostamente precisamos para a nossa sobrevivência. Infelizmente não é tão fácil aferir onde se encontra a “fome” de cada um. Se assim o fosse, poderíamos prover o invejoso da “comida” que lhe falta e sanar-lhe a dor. Mas cada indivíduo apresenta o estomago vazio em algum lugar diferente, embora, acredito, todas as dores estejam enraizadas na auto-estima.

Se eu não tivesse tanta insegurança, teria conseguido ficar feliz naquele átimo de segundo antes da razão se sobrepor à emoção. Eu saberia que tenho acesso aos mesmos “momentos” que ela. Teria certeza de que ando ao lado dela. E nunca teria me sentido triste, ainda que por um centésimo de segundo, por não ter o que ela tem.

Quando a razão emergiu, lembrei-me que ao longo do ano passado eu tive tudo isso, enquanto ela sofreu duros golpes da pessoa que hoje lhe acaricia a cabeça. Quando a razão emergiu, pude constatar que o que eu sentia era injusto não somente com ela, mas comigo também. Tendo a razão como guia, percebi que eu me depreciei naquele momento e me coloquei na posição do indivíduo incapaz de suscitar admiração e de receber louros por seu trabalho.

É essa razão emersa que me faz declarar que o invejoso sofre de fome. Mas não é qualquer fome, é uma fome dolorida, pesada e cansativa, que mina a resistência do infeliz e o faz curvar-se sobre o estômago vazio… o estômago da alma. O invejoso padece de fome de apreciar-se e ver-se a si mesmo como ele realmente é. Carece de uma certa afasia e sofre de tremenda falta de propriocepção. Enxerga e não vê, lê e não interpreta, toca e não sente a si próprio. Deseja do outro o que ele nem mesmo sabe que tem, como uma criança que observa, babando, a vitrine de doces, mas esquece de escarafunchar a própria lancheira para ver o conteúdo… e  por isso deixa de ser supreendido pelo doce que a mãe zelosamente embalou.

O que me resta no momento é a pergunta: como faço para abrir a minha lancheira?

xLDpt>en GoogleDicC
minus , wanting , without , less , outside , past , lacking , out

A maior dor do mundo…

… não emerge quando resolvemos observar nosso universo através de um microscópio, analisamos cuidadosamente todas as microvilosidades do passado e do presente e divisamos o tamanho das dores que carregamos.

A maior dor do mundo não aparece quando percebemos o tempo perdido, os amores idos e a energia gasta em vão, diluída em cotidianos de esperanças, tentativas e vicissitudes.

Tampouco flutua esgazeada pela umidade do ar entre os nossos olhos e o vidro da ocular embaçando a imagem…

Não. A maior dor do mundo acontece quando percebemos que todas as dores que carregamos ainda persistem e não vão desvanecer sozinhas, não se dissiparam e nem o farão, apesar de já velhas, apodrecidas e fedidas de naftalina.

Nada do que eu faça hoje vai fazer com que as lágrimas retidas sequem. Há zilhões de litros cúbicos de água a ser chorada por todas essas dores ainda, lágrimas que não verterei, pois já aprendi que há coisas melhores a serem feitas do que ressuscitar mortos putrefatos. No entanto as lápides pesam, sustentáculos de concreto para odes à traição, vaidade e egoísmo humano, gravados em letras de fel, rancor, mágoa e laivos de desespero. Não acordemos os mortos, porém, vez ou outra troquemos as flores e caiemos as lápides para que não pareçamos um aterro sanitário ao invés de um distinto cemitério de fetos de esperança e alegria, abortados pela crueldade inerente aos que se dignam auto-denominar o topo da escala evolutiva.

A maior dor do mundo me faz curvar, arfar e soluçar em silêncio. Esconder a maior dor do mundo é verdadeiramente uma arte e me fez aprender a dissimular, olhar para os lados e sorrir, quando na verdade gostaria de pular do 10o andar, cortar os pulsos ou tomar uma overdose de calmantes regados a black label.

Interessante, porém, é que justamente por eu não acreditar válido pular do 10 andar, cortar os pulsos ou tomar uma overdose de calmantes regados a black label, ao analisar as microvilosidades do passado, percebo estruturas outras, pequenos oóides de cartilagem que cresceram, sustentando os tecidos. Essas novas estruturas, feitas de uma amálgama de experiência, tempo e paciência, reforçam o tecido e impedem que ele colapse.

Sim, é um paradoxo brutal: aquilo do que procuro desesperadamente fugir é o que me torna mais forte e capaz de seguir em frente; é o enrijece as proposições; é o que concretiza a minha paz. Sabendo-me tão dolorida, aprendi que nada mais pode me machucar tanto. A maior dor do mundo é o paliativo de si própria, a panacéia de todas as outras farpas do porvir.

Sou forte.
Ninguem imagina o quanto sou forte.

A Rainha de Copas veio ao meu castelo no Natal, ofertar-me frutas as quais não aceitei, justamente por fazer 33 anos que anuncio não gostar daquelas mesmas frutas. Nâo chorei.

O dono do sorriso largo vai casar com a lacaia. Chorei como uma criança, mesmo sem saber porquê. Chorei porque talvez tenha sido a coisa que aprendi a fazer. Sentei-me no cantinho entre o criado mudo e a cômoda, canto que mal acomoda meus quadris e verti lágrimas doloridas, quase que de redenção. Agora acabou. Mesmo. Toda a fábula do reino. E viveram felizes para sempre. É o que tenho que esperar que aconteça, porque sou um ser humano espiritualizado. E só por isso.

O urso devolveu meus pertences somente ontem. Deixou dois ítens sem embrulho, pacote ou bilhete. Largou na portaria com tal displicência, como se quisesse reforçar o quanto insignificante eu sou, que chorei. Mas também devo admitir que estou sob a influencia da flutuação hormonal mensal e assistia a um filme diabeticamente açucarado quando o interfone tocou. Corri à sacada e ainda pude ve-lo virando a esquina, o mesmo andar pesado, a mesma mochila nas costas, os mesmos cachos castanho-avermelhados.

Nota que vale a pena ser redigida nesse momento: uma das maiores lápides do cemitério supra-citado é aquela que enverga um cânone dodecafônico sobre o descaso e desprezo dos ex-amantes. Que esse cluster de insônias vibre em seus tímpanos por toda a eternidade quando suas almas arderem no inferno. Especialmente as dos que se utilizaram ad libitum do meu tempo precioso e ostentam motivos egoístas para me dispensarem tal tratamento. Amém.

Os ombros que Deus havia me enviado como resposta às minhas rogativas eram somente um analgésico tópico. Logo que ele se meteu a fuçar meus emails, descobriu uma mensagem de caráter dúbio do urso, beijou meus lábios sofregamente no ponto de ônibus e se foi. Mal sabia eu que seria a última vez. Numa quinta-feira ele declarou que quanto maior o apego, maior seria a queda e que assim sendo, queria desapegar. Assenti, um tanto contrariada.

No dia seguinte, fitava-me com olhar dorido. Não subi para a segunda aula, resolvi fazer companhia a um amigo na comemoração de mestrado de outro, ainda na faculdade. Entrei, peguei uma cerveja, duas, três. Pensava no urso. Meu amigo se afastou, fiquei sozinha, ao lado do barril lotado de cervejas geladas.

Eis que o Rei cruza a sala e vem em minha direção. Há 4 anos, ainda infante, nem sequer apresentava porte de monarca. Agora, já homem, já muito alto o homem, já muito grande esse grande homem, ostentava naquela sexta-feira, lindo sorriso largo, olhos verdes brilhantes e uma massa de cachos loiros.

Falou mansamente por uma hora…. por duas horas… por três horas…. enquanto eu bebia insanamente e alternava meus pensamentos entre uma preocupação cada vez mais forte sobre como voltaria para casa e a aferição tão aliviadora de que sim, talvez eu fosse desejada naquele momento.

Ele me acompanhou ao ponto de ônibus. E lá, me beijou. Depois que avisei que se ele nada fizesse eu também nada faria, vale registrar. Ele me beijou. Um beijo mil vezes melhor do que todos que eu já havia experimentado.

Ele me abraçou. E aquele abraço sim, foi o que eu havia pedido a Deus, foi a resposta das minhas preces. Foi o abraço salvador, resgatador, protetor, acolhedor… Foi o melhor abraço da minha vida. Era dia 10 de outubro.

Nos meses seguintes pude descobrir que os cachos loiros e os olhos verdes brilhantes são a qualidade menos importante dele. O que mais aparece, mais brilha e mais encanta é o coração dele. A paciência para ouvir, pensar, conversar, sorrir e resolver os conflitos que advém, muitas vezes e como seria de se esperar, da grande diferença de idade. E da família. Ele tem família, eu não.

Posso afirmar que Deus me dá sempre aquilo que peço. Talvez o Urso tenha sido um preâmbulo necessário para que eu entendesse o rei. Talvez o rei se vá em poucos meses, apesar de ele mesmo ter decretado o Namoro, no dia 31 de dezembro. Não poso prever os próximos capítulos, mas posso hoje aferir que, em meio à tempestade de me ver proprietária de enorme cemitério de lápides caiadas ostentando sonetos em redondilha maior, há um raio de sol, por meio das nuvens, insistindo em refratar, criando o arco-íris.

Esse raio de sol tem 1,90m, lindos olhos verdes, uma massa confusa de cachos loiros deliciosamente bagunçados, um sorriso lindamente largo…. e um coração ENORME, que o faz dizer com voz aveludada, enquanto me abraça e me esconde do mundo, quando vislumbra a sombra das nuvens em meus olhos tristes, que tudo vai ficar bem.

Deus responde.

Os cachos foram embora. Deixaram meu coração em caquinhos, que caíram no chão, fizeram muito barulho e instigaram lágrimas que inundaram meus dias. Mas passou. Ficou um sentimento dolorido, uma saudade com cheiro de chuva… Sabe quando o dia está muito calor e no final da tarde começam cair aqueles pingos fortes, uma ventania braba, leva telhas, faz cair a eletricidade em alguns lugares… e depois, quando vai embora, deixa um frescor e um suave cheiro de grama molhada? Foi assim.

Durante a tempestade, foi difícil até comer. Enquanto as telhas voavam, muitas folhas eram varridas do quintal das minhas reminiscências de infância… como um filme, cenas se projetavam diante dos meus olhos enquanto eu andava na rua, tomava banho ou fazia compras. Foi horrível. Parecia que o inferno havia aberto as portas e liberado meus monstros guardados cuidadosamente no guarda-roupa há anos. Eu precisava rever minha vida. Eu *tive* que rever minha vida.

Não foram os cachos castanho-avermelhados que fizeram isso. Não, nenhum ser humano presente em nossa vida por tão pouco tempo pode nos fazer sofrer tanto. Mas foi uma coisinha sem importância que ele disse, uma frase… a mesma frase que minha mãe dizia. A frase que era a senha para a libertação dos monstros. Eles saíram uivando, grunhindo, fedendo e querendo destruir tudo ao redor. Felizmente não o fizeram, porque uma boa alma, na figura de um padre muito engraçado, veio falar comigo no dia em que eles iam vencer. Eu juro, eles iam vencer. Corri pra igreja perto de casa, não havia mais recurso disponível, ninguem pra pedir ajuda, ninguem pra quem eu tivesse coragem de contar o que eu estava passando, senão Deus e rezei. O padre me viu chorando, veio, sentou-se do meu lado, fez algumas piadas… e disse: por que vc não espera só mais um dia? Quem sabe amanhã a resposta apareça?

Na verdade, a resposta não apareceu do jeito que eu esperava. Mas como sei que Deus é muito didático, pedagogo exemplar, resolvi puxar a fímbria do vestido dele – po, na boa, essas figuras renascentistas de Deus usando vestido são grotescas! rs… – todos os dias. A TODO MOMENTO. Literalmente. Eu disse: “Deus, o negócio é o seguinte, eu vou te atormentar tanto, mas tanto, que, ou vc me restitui o que eu perdi, ou me dá algo tão melhor, mas tão melhor, que eu nem lembre da perda.” Há na Bíblia uma passagem: “Se um filho pedir um pão, qual o pai entre vós que lhe dará uma pedra? Se ele pedir um peixe, acaso lhe dará uma serpente?” (Lucas 11:11). Resolvi pedir meu pão a Deus.

A choradeira foi passando aos poucos. Os monstros foram sendo derrotados. O dono do sorriso largo perdeu seu trono que ocupava há cinco anos. Cinco anos! Havia cinco anos eu não tinha coragem de olhar para o trono, para conferir se o sorriso largo e a risada alta ainda estavam lá. Eu tive que olhar dessa vez. Encontrei o trono vazio, muito pó… e pouca saudade! Aliás, sendo bem honesta, nenhuma saudade. O rei fugiu com a lacaia para outras terras e na verdade foi o melhor para o reino todo. Como eu lamento não ter visto isso antes!

A Rainha de Copas perdeu seu lugar no meu reino também. Finalmente pude enxergá-la do jeito que é, ser-humano pobre de perspectivas e carente de amor. Tão carente que nunca conseguiu vislumbrar a única saída que resta àqueles que carregam esse buraco negro dentro de si. Só existe um jeito de suprir a carência: dando amor. Não há outra alternativa. Eu aprendi. Ela não. Ela teve 3 filhos maravilhosos e os colocou um contra o outro. Dilacerou uma família com o seu egoísmo e sua necessidade de atenção. Foi verdadeiramente libertador aceitar isso. Estava andando na rua e comecei a rir desvairadamente ao conseguir pronunciar a frase que soltou as correntes. As pessoas me olhavam como se eu fosse louca. Só faltei gritar que estava alforriada. E nessa última sexta-feira eu finalmente coloquei os lacaios da Rainha de Copas para fora do meu reino. É óbvio que doeu e que o medo de estar sozinha no mundo é incrivelmente aterrador. Porém… Ninguém mais terá cabeças cortadas, eu garanto!

Faz uma semana e meia que Deus, cansado da minha ladainha e impossibilitado de ir contra o livre-arbítrio de um filho dele, colocou em meu caminho um paliativo altamente potente. Ele é muito alto e muito carinhoso. Nâo tem cachos castanho avermelhados. Mas tem a capacidade de dizer “desculpa”, “por favor”, “o que vc acha?” e de me esperar quase todos os dias depois da aula para me acompanhar até o ponto de ônibus. Quando está ficando muito tarde, ele pergunta se eu vou ficar brava se ele não esperar comigo. Simplesmente porque este é o último ônibus dele. Eu fico boquiaberta, mas não demonstro. E meu coração incha. De verdade. Enquanto isso, o mundo do viking se faz confuso e me confunde mais ainda. Estou tão confusa que não tenho mais voz e nada digo. Meu coração ainda dói, mas eu silenciei.

Silenciei nos braços daquele que Deus me mandou como resposta às rogativas de uma criança pidona e irritante. Silenciei vendo meu reflexo bonito e brilhante no olhar carinhoso daquele que não entende direito ainda o porquê de eu não querer me render totalmente a ele – não consigo dizer que não posso, porque o urso ainda não me restituiu meu coração. Silenciei, confusa, amada por um e desprezada por outro, em prece que traz uma mistura de agradecimento – pela resposta tão maravilhosa que Ele me enviou – e de rogativa – para que o urso liberte meu coração ou o tome para si, para sempre.

Deus avisa

 

Ultimamente a única coisa que me passa pela cabeça é o quanto as vezes a vida parece fluir de uma maneira absolutamente diversa daquela que esperamos. É o que tenho sentido em vários setores da minha vida. Tudo o que planejei para a minha década dos 30 não aconteceu. Porém, outras coisas, muito espetaculares, muito mais estranhas, substituíram a sequência casamento – filhos – carreira – casa própria. E eu estou feliz. Muito feliz. Talvez BEM mais feliz do que se tivesse seguido a sequência canônica. Eu ando na rua sorrindo.  Isso é um indicativo, né? (Vale lembrar que, segundo aferições de pessoas queridas e muito próximas eu *não* sou boba; doida sim, mas boba não…  =P  )

Bom, faz algum tempo eu não tenho ido a nenhum centro. Nem sequer prestado muita atenção no “outro mundo”. Estava tão cheia de coisas pra fazer nesse lado de cá que simplesmente “dei um tempo” do  mundo de lá. Essas coisas se cobram por si só. Sendo uma DDA feliz é óbvio que muita coisa passou desapercebida. A raiva que eu estava suscitando nas pessoas, por rir demais. A inveja que certas pessoas estavam começando a sentir porque, mesmo sem muitas razões aparentes, eu ainda assim estava cantarolando. E, é claro que havia pessoas na minha própria casa usando droga pesada e alimentando ódio. Que coisa mais desagradável! Mas é Murphy… Quando vc descuida, acontece. Claro.

Também é lógico que eu deveria ter sentido isso e me prevenido. Ah, mas não senti, tá bom? Nem me liguei. Não percebi que as energias estavam mudando, só comecei a ter insônia. O cansaço e a insônia foram batendo cada vez mais forte. A ponto de eu dormir 3 horas por noite na última semana de junho. É claro que pus a culpa na faculdade, nos relatórios, nos projetos, nos planejamentos… No término de um relacionamento que já estava fadado à ruína mesmo antes de começar. E na ansiedade que eu negava em admitir que sentia cada vez que essa nova pessoa demorava a falar comigo no msn.

 

Deus avisa. Deus me avisou que *aquele* relacionamento não ia dar certo. Eu não quis ouvir, paguei pra ver. E vi. =[  Deus avisou, mandou outra pessoa no lugar, *exatamente* no dia em que eu descobri aquele pequeno detalhe que ia fazer tudo *não  funcionar*. Mas eu não quis ouvir. Estava achando que eu podia dar conta de tudo. Acreditei que era poderosa. Estava errada.  Deus avisou sobre a situação toda, as meninas, a inveja, a droga, os erros, tudo. Mas eu estava muito preocupada com meus relatórios. Não escutei.

O problema todo é que os avisos não vêm bonitinhos, lacrados em um envelope, através de um courier que fica esperando a gente assinar pra confirmar o recebimento. Deus não é um velhinho de barbas brancas, sentando em um trono forrado de veludo vermelho, observando cuidadosamente onde a gente põe a mão, só pra mandar raios e fulminar os “pecadores”. Deus está mais pra um algoritmo que roda infinitamente. É claro que o output desse programa vai depender das estruturas cognitivas da gente. Porque o algoritmo é tão, mas tão perfeito, que ainda sabe escolher por si só como vai nos avisar!

Pra algumas pessoas, o Algoritmo fecha as portas. Mas se essas pessoas são burras, continuam batendo nessas portas fechadas, às vezes por anos a fio, sem entender a mensagem. Pra outras, Deus manda gente avisar mesmo. Gente encarnada, física, carne e osso. Fulano bate no seu ombro e fala uma coisa que vc nunca esperava ouvir e que resolve todo o seu problema. Aconteceu comigo na estação Belém do metrô, há alguns anos. Eu, desesperada, sem saber como ia pagar o aluguel. A senhorinha sai do meio da multidão das 6 da tarde, vem na minha direção e diz: “Jesus mandou te avisar que Ele tá olhando e que vai te ajudar”. E enquanto eu me refazia do choque, ela sumiu. Dois dias depois apareceu o dinheiro. E um emprego novo. É o Algoritmo.

Muitas vezes a resposta ou o aviso vêm de coisas que a gente vê na TV, lê em livros, recebe por email. Sim, Deus também usa o Gmail, Orkut, Google… Por que não usaria? Duh, se Ele é o Dono do Mundo, nada mais justo… =P  Mas geralmente a gente não escuta nada, não vê nada e não fala nada que preste, só bobagem. The Three Monkeys upgraded.

Pois bem, Deus me avisou e felizmente, como eu não ouvi de jeito nenhum, ele deu um jeito de eu parar quieta. Me pôs de cama. Duas semanas de uma gripe horrorosa que me fizeram enxergar tudo, ainda que eu estivesse debaixo das cobertas. Eu finalmente *tive* que admitir que aquele relacionamento era muito furado. E nesse momento, aquele pequeno aviso do Algoritmo que vinha em doses homeopáticas pelo msn todos os dias assomou o vácuo que o homem fanático por “russas canhotas que falassem francês” havia deixado. O aviso veio na forma de cachos castanho avermelhados. E de mensagens doces. E de muito respeito. Muito mesmo. Agora eu ainda estou impressionada com o “aviso”, por isso não sei que alcance ele tem. Mas estou ainda mais feliz do que eu já sou. Porque é muito bom passar a mão naqueles cachos e rir junto com ele. =]

Ainda debaixo das cobertas, enxerguei o outro aviso. O de que as pessoas com quem convivo não são boas pra mim. Descobri de uma forma dolorosa, necessitando desesperadamente de uma caixa de kleenex e de um  antitérmico que nunca vieram, através de uma porta batida na minha cara e de muita agressividade velada, contida, por causa de uma mesa, que na verdade era uma desculpa pra não se falar… da minha felicidade!! Ou da minha falta de tristeza e desespero com as coisas quando nada dá certo… o que definitivamente não é a mesma coisa, embora as ambas as estratégias andem conjugadíssimas na minha conduta já faz algum tempo.

 Agora que eu vi as mensagens, preciso tomar providências… e não é que o Algoritmo respira aliviado e manda tudo o que eu preciso? Tenho os caminhos abertos, pessoas me dando sugestões, carinho, suporte e palavras de incentivo. E, se os avisos foram do Algoritmo, essas manifestações de carinho são das ressonâncias dEle nessas pessoas maravilhosas. Impressionante esse Deus. ô cara eficiente! =]]

É claro, o prêmio de melhor frase da semana veio, sim, do dono dos cachos, quando eu lamentei que já havia pintado uma parede… que estava tudo tão bonito… “Ué… pinta a outra também! Ou melhor, muda a cor! Não quer?!”

Sim, quero. =] … suspiro… o coração incha…  percebo o <Elmyra Duff mode on>…

Quero. =]

Porém mais do que pintar as paredes novamente  ou escutar a risada dele, eu quero de uma vez por todas aprender a escutar os avisos do Algoritmo antes que Ele tenha que tomar atitudes drásticas pra me fazer parar quietinha novamente. Às vezes pareço uma criança dos infernos de tão agitada. E Ele é um educador muito eficiente. Eu sei que Ele vai me forçar a escutar, porque me ama.  Afinal de contas, não é esta a definição de Deus? Amor?

“I’m gonna hug you and kiss you and love you forever (and never use you up)”  [Elmyra Duff]

Namaskar

Sempre me pergunto o que tenho feito no mundo, se minha encarnação vale a pena, se é boa para mim e para as bilhões de pessoas – encarnadas ou não – que habitam o orbe terrestre. O impressionante é que  mais da metade das vezes encontro-me respondendo a essa pergunta com um sonoro “não sei”. Isso não me deixa triste, porém traz a necessidade de pensar mais profundamente e de interagir mais com as pessoas  a minha volta pois, ao que parece, não conseguimos saber realmente quem somos através de nossos próprios olhos, mas conseguimos perceber muito de nós mesmos em nosso reflexo nos olhos dos nossos interlocutores.

Diz o Bhagavad Gita, cap. 5 v. 10: “sejam todas as suas ações voltadas a Deus e para Deus. Assim, você será como a flor de lótus, que apesar de nascer na lama, não é tocada por ela”.

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O que significa voltar suas ações para Deus? Quem é Deus? Podemos definir Deus?

Esse blog é dedicado a Ele e às coisas dEle, não importa a forma como Se apresente ou com que nome Ele seja chamado. Disse Jesus: “Buscai as coisas do Céu e as demais vos serão acrescentadas”. Estou buscando. Espero que me seja acrescentada mais paz em minha vida e nas de todos os habitantes desse planeta!